💭⚖️ O Que Importa Mais: a Realidade ou a Sua Verdade? Como Recontar o Passado Sem Mentir Para Si Me

Realidade é fato; verdade é experiência. Entenda como duas pessoas vivem o mesmo evento de formas diferentes e como recontar o passado pode mudar seu equilíbrio emocional.

✍️ Autor: André Nascimento

1/26/20265 min ler

1. Realidade x verdade: não é a mesma coisa

diferença entre verdade e realidade

Na filosofia, costuma‑se chamar de realidade objetiva aquilo que existe independente de gostar ou não: o que de fato aconteceu no mundo externo. Já a verdade subjetiva é como a sua mente organiza esse fato: emoções, interpretações, histórias que você conta sobre o que viveu.

Quando alguém pergunta “o que é mais importante, a verdade ou a realidade?”, na prática está perguntando: “o que pesa mais na minha vida, o que aconteceu ou o que eu faço internamente com o que aconteceu?”.

2. Um fato, duas verdades (ou mais) 👥

subjetividade da experiência

Imagine uma briga: alguém agride e alguém é agredido. A realidade externa é um fato: houve agressão. Mas a verdade íntima de cada um é outra história: o agressor racionaliza, o agredido sente medo, humilhação, raiva; cada um atribui motivos e significados diferentes.

Anos depois, marido e mulher contam o mesmo episódio do início do relacionamento em um jantar com amigos — e as duas versões são diferentes, embora falem da mesma noite. A realidade foi uma; as memórias e verdades internas são várias, coloridas pela emoção de cada um.

3. Por que duas pessoas lembram tão diferente do mesmo passado? 🧠

memória e interpretação

A memória não é uma câmera de segurança; é um processo de reconstrução. Toda vez que você relembra algo, adiciona pedaços novos: o que sentiu, o que aprendeu depois, o que ouviu de outras pessoas.

Pesquisas em psicologia mostram que mudar a perspectiva sobre um evento (por exemplo, olhar de fora, como se fosse observador) altera tanto a emoção quanto o significado ligado à lembrança. Por isso, a “verdade” que você sente hoje sobre algo de 10 anos atrás não é idêntica à de quando aconteceu.

4. Você não muda o fato, mas pode mudar o significado 🔁

ressignificar o passado

Não é possível apagar a realidade histórica: o que aconteceu, aconteceu. Mas é possível ressignificar — isto é, mudar a forma como você entende aquele fato e o papel que ele desempenha na sua história.

A técnica de reavaliação cognitiva (cognitive reappraisal) mostra que, ao reformular mentalmente uma situação, o cérebro muda a resposta emocional: a mesma memória pode deixar de ser uma ferida aberta e virar aprendizado, limite, ou ponto de virada.

5. Recontar o passado não é mentir, é amadurecer a própria verdade 🌱

narrativa pessoal e identidade

Vários autores falam em identidade narrativa: quem você é é, em grande parte, a história que conta sobre o que viveu. Reescrever essa narrativa — com mais responsabilidade, autocrítica e compaixão — não significa inventar fatos, mas ajustar o foco:

  • sair do papel de vítima absoluta ou vilão absoluto;

  • reconhecer nuances, contextos, limites de todos os envolvidos;

  • atualizar o lugar que aquele evento ocupa na sua vida.

Quando você faz isso, não muda o passado externo, mas muda a verdade interna que te guia hoje.

6. Verdade subjetiva não é licença para negar a realidade 🚫

verdade subjetiva e responsabilidade

Dizer “essa é a minha verdade” não pode virar desculpa para negar fatos objetivos (“eu não te agredi”, “isso nunca aconteceu”) quando existem evidências claras. Vivemos em sociedade, e a realidade compartilhada é a base para justiça, cuidado e limites.

O ponto não é escolher entre verdade ou realidade, mas entender a interação: respeitar os fatos, e ao mesmo tempo reconhecer que cada um terá um caminho próprio para processar e integrar esses fatos.

7. Como mudar a sua verdade sobre o que viveu (sem apagar o que houve) 🧩

ressignificação prática

Alguns passos práticos para trabalhar a própria verdade diante de um evento difícil:

  1. Nomear o fato: o que, objetivamente, aconteceu? (sem adjetivos)

  2. Nomear a emoção: como aquilo te fez sentir na época? (tristeza, medo, raiva, vergonha…)

  3. Atualizar recursos: o que você sabe e é capaz hoje que não tinha naquela época?

  4. Rever a interpretação: há outra forma de olhar para isso que seja mais justa com você e com os outros, sem negar o sofrimento?

Essa revisão não muda a linha do tempo, mas muda o peso que o passado tem sobre o presente.

8. Verdade, desejo e equilíbrio: que história você quer continuar repetindo? 🎯

mente comportamento equilíbrio

A forma como você conta o passado influencia o que deseja, como se comporta e que tipo de vida considera possível. Se a narrativa é “sempre fui fracassado”, “ninguém nunca me escolhe”, “eu só atraio problema”, o desejo encolhe e o comportamento se auto‑sabota.

Quando você revisa a verdade interna (“eu fiz o melhor com o que tinha”, “hoje tenho mais ferramentas”, “posso escolher diferente”), não apaga erros nem dores; só deixa de usá‑los como sentença perpétua. Isso cria equilíbrio entre honrar o que houve e permitir que algo novo nasça daqui pra frente.

9. Chamada de ação: escolha um episódio e coloque sua verdade em revisão 📝

exercício de ressignificação

💬 Convite: pense em um episódio da sua vida que ainda pesa — um término, uma briga, uma decisão. Em seguida:

  • escreva os fatos secos, em poucas linhas;

  • escreva a “verdade” que você conta sobre isso hoje (a versão carregada de emoção);

  • faça o exercício de imaginar essa cena pelos olhos de outra pessoa envolvida, ou de você mais velho, com mais maturidade.

Pergunte‑se: “Que nova verdade posso construir sobre isso sem negar o que aconteceu?”. A resposta pode não vir na hora, mas o movimento de perguntar já abre espaço para uma história mais honesta e menos dolorosa.

10. Conclusão: você não muda o passado, mas muda o passado que vive dentro de você 🧠⏳

recontar o passado com equilíbrio

Quando alguém pergunta “o que é mais importante, a verdade ou a realidade?”, a resposta mais honesta talvez seja: não existe cura sem as duas. A realidade coloca limites (o que houve), a verdade traduz como isso te atravessa hoje — e é nessa segunda camada que você tem margem de manobra.

Mudar a forma como entende o próprio passado — redimensionar, recondicionar, reinterpretar — não é negar vivências, é finalmente honrar o que você sentiu e, ao mesmo tempo, reconhecer que já não é mais a mesma pessoa. A vida não te dá o poder de voltar no tempo, mas te dá o poder de escolher que história continua contando sobre aquele tempo — e isso muda completamente a forma como você vive o agora.

Crítica construtiva da conclusão 🧐

A conclusão aponta bem a necessidade de integrar realidade e verdade interna, mas pode soar otimista demais para quem vive traumas pesados, violências ou lutos complexos, em que ressignificar sozinho não é suficiente. Ela também não enfatiza que, em contextos de abuso, a prioridade é justamente validar a realidade objetiva (“isso aconteceu, isso foi errado”), antes de propor qualquer mudança de narrativa.

Para ficar mais equilibrada, a conclusão poderia:

  • destacar explicitamente o papel de terapia e apoio profissional em casos de trauma;

  • alertar que ressignificar não é culpar a vítima (“basta mudar sua verdade”);

  • reforçar que algumas realidades externas (como violência estrutural) não mudam com narrativa, mas que mesmo aí trabalhar a verdade interna pode fortalecer a capacidade de agir, se proteger e buscar mudanças concretas.

Fontes de pesquisa 📚

  • Textos de filosofia sobre subjetividade, objetividade, verdade e realidade.

  • Pesquisas sobre reavaliação cognitiva, mudança de perspectiva e impacto na emoção.

  • Artigos sobre narrativa pessoal, identidade e reescrita do passado como ferramenta de crescimento.